O Demônio na Cidade Branca (Erik Larson)

DNCB“Assassinato, Magia e Loucura na feira que mudou os EUA”

Fui na casa de uma amiga naquele dia e depois de muito papo e uma boa garrafa de vinho, fui direto fuçar os livros dela (dentre os quais, uma bela seleção de obras de Beauvoir que cobiço imensamente…). Logo me deparo com um livro de capa preta, com um título chamativo em amarelo e o agarro. O livro? O Demônio na Cidade Branca, de Erik Larson. A primeira reação de minha amiga foi me emprestar o livro. “Ele é a sua cara, você vai adorar”, ela disse, e não deu outra. Adorei.

Mais ou menos dois meses depois, na reunião (quase) mensal do nosso grupo de amigos leitores, vamos juntas e falamos juntas deste livro. Resultado: parecia que tínhamos lido dois livros completamente diferentes.

Explico: Erik Larson dá vida à Chicago da última década do século XIX através da história de dois homens, ambos de olhos azuis, ambos determinados e muito bons no que faziam. Tão iguais, tão diferentes. O primeiro, Daniel H. Burnham, arquiteto, que supervisionou a construção da Exposição Colombiana, e levantou em tempo recorde e condições mais que adversas, um verdadeiro milagre arquitetônico. O segundo, Dr. Henry Howard Holmes, nascido Herman Webster Mudgett, homem empreendedor e de aparência tranquila, que confessou o assassinato de 27 pessoas, e construiu o famigerado “Castelo”, um hotel um tanto macabro.

Para ela, é a história de um assassino. Para mim, a construção de um sonho. A Exposição Colombiana foi o ponto alto de uma sequencia de feiras internacionais ao redor do globo, e um de seus motivos – à parte o ostensivo, de comemorar os 400 anos da chegada de Colombo às Américas – era competir com a Feira Internacional de Paris, por causa da qual hoje temos a Torre Eiffel.

The-white-city1-300x199A Exposição foi um marco no american way of life. Consolidou de vez o capitalismo, e a sociedade de consumo. Maravilhou seus mais de 27 milhões de visitantes com a beleza de seus prédios e pavilhões, seus personagens exóticos e seus avanços tecnológicos – como a iluminação elétrica, a primeira Roda Gigante, do engenheiro George Ferris, construída expressamente para rivalizar com a Torre de Gustave Eiffel. Pela quantia de 50 cents, passavam o dia na “Cidade Branca”, viam dançarinas exóticas, Buffalo Bill, javaneses, e passeavam – 60 em cada carro – na Ferris Wheel, ao som de Ragtime.

Foi crucial também para a reputação de Chicago, uma vez que a cidade era conhecida como A Cidade Negra, com sua sujeira patente e seus milhares de abatedouros. Foi também o nascedouro de produtos como o Juicy Fruit Gum, a Aveia Quaker, e a inspiração para a Oz de Frank Baum e para as fantasias de Walt Disney.

Enquanto isso, Dr. H.H.Holmes e sua fala macia, seu empreendedorismo e sua simpatia conquisstavam as jovens donzelas que pisavam pela primeira vez na cidade de Chicago, experimentando uma liberdade inédita, vez que podiam caminhar por aí desacompanhadas. Burlava regras e dissimulava de forma a ganhar rios de dinheiros em operações imobiliárias fraudulentas. Também possuía um jeito todo especial de tirar a vida de suas vítimas, obtendo vantagens disso.

Dr.-HO contraponto entre o esforço quase hercúleo de Daniel Burnham e seu sócio para levantar a Cidade Branca, e o método determinado de Dr. Holmes faz com que a história fique muito mais interessante. Como diz o próprio autor:

“Além de sangue, fumaça e argila, esse livro trata da transitoriedade da vida e das razões que levam alguns homens a escolherem gastar suas breves existências dedicando-se ao impossível, ao passo que outros se empenham na produção de sofrimento. Trata-se por fim de uma história do conflito inescapável entre o bem e o mal, entre a luz do dia e a luz das trevas(sic), entre a cidade branca e a negra.” ((Erik Larson, Seattle))

Ao ler o livro, se tem a sensação de estar em outro mundo, e fica muito difícil lembrar que se trata de um livro de não-ficção, que conta com índice remissivo e extensas referências bibliográficas corroborando uma pesquisa minunciosa, que inclui a transcrição do julgamento de Holmes, e o ticket original de entrada na feira. Não há como terminar o livro e não sair louco atrás das fotos da Chicago de 1893, sua suntuosa cidade branca e a cara daquele assassino.

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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