A Cruz de Cinza (Fran Zabaleta e Luis Astorga)

cruz de cinza“La peregrinación de Baltasar y de Hans es un viaje por la locura de la religión” – Fran Zabaleta

Uma das mais agradáveis surpresas de meu ano literário, A Cruz de Cinza é um livro que chegou às minhas mãos quase por acaso, numa compra de impulso. Lançado no Brasil em 10 de outubro de 2008 pela editora Record, este romance histórico conta das andanças de Baltasar Sachs e Hans Gotha, além das desventuras de Paulette, através da loucura religiosa que foi o século XVI.

Os personagens principais são fictícios. Baltasar – retratado como um pregador sábio, preocupado com o seu entorno, que busca um mundo mais humano e menos mesquinho – é um rapaz inteligente e de família rica que se torna monge pela ordem de Cister, numa tentativa de descobrir Deus, mas se vê cativado pelos argumentos de Lutero numa audiência pública e se decide a seguí-lo.

Hans Gotha – a voz da razão e da consciência de Baltasar – é um rapaz do campo, forte e prático, que perdeu sua família de maneira trágica, e cuja vida é salva pelo ex-monge e a ele devida. Apesar das diferenças de origem, Baltasar e Hans tornam-se grandes amigos, e acabam sendo arrastados para uma torrente de mudanças e quebra de paradigmas que ficou conhecida como a Reforma Protestante.

Já Paulette, uma menina voluntariosa que recebe a pesada carga de esconder o filho de sua senhora – Jean – das garras de seu marido, se vê salva por um grupo de anabatistas de bom coração, e se torna mulher e sábia em meio a acontecimentos que fogem ao seu controle.

O rol dos personagens se completa com Conrad, um aristocrata estudioso que larga a universidade para seguir os passos de Lutero, cuja arrogância e ingenuidade impedem seu crescimento espiritual, e Harris, esbirro da amante do rei, com seus olhos azuis frios e cruéis, que engendram uma perseguição sem fim ao pobre Jean. Tais personagens podem ser fictícios, mas o mundo em que vivem não o é.

Para os autores, esta é uma história de iniciação, sendo a religião o personagem principal, utilizada como desculpa para desmandos e atrocidades, traições e escaladas ao poder, num mundo desacorçoado por mudanças repentinas. Sua intenção ao escrever o livro era a de “refrescar a memória da loucura”, uma reflexão sobre o fracasso da religião como justificação do poder de um homem, como vemos ainda hoje, neste nosso mundo coberto de guerras religiosas.

Sobre o intrigante título do livro, em seu site “Cuaderno de Notas”, Fran Zabaleta explica que A Cruz de Cinza simboliza

“en qué medida las creencias cristianas, para católicos y protestantes, no fueron más que ceniza cuando los mismos que se llenaban la boca con palabras de amor y caridad se empeñaron en imponerlas por la espada. La ceniza es el poso de las interminables guerras de religión y el sabor acre del sinsentido.” (( Numa tradução rápida: em que medida as crenças cristãs, para católicos e protestantes, não foram mais que cinza quando os mesmos enchiam as bocas de palavras de amor e caridade e se empenhavam ao impô-las pela espada. A cinza é o poço das intermináveis guerras de religião e o sabor acre do sem sentido. Fonte http://www.franzabaleta.com))

O ápice do romance se dá com a instituição do reino messiânico de Münster, nascido de um grupo de anabatistas, hereges que viviam em comunidade, no o real sentido da palavra, uns ajudando aos outros, constituindo uma pequena ilha de tolerância no mar agitado das guerras entre Cristãos e Protestantes de várias vertentes. A história encontra um de seus momentos mais interessantes no retrato da degradação desta comunidade, com o aparecimento de um líder de moral escusa, mas belo e carismático. (estranho como essa história se repete…)

Além da bela descrição da Alemanha do século XVI, Luis Astorga e Fran Zabaleta se destacam por criar personagens e situações de uma realidade e profundidade impressionantes, com tantas matizes que, apesar de nos identificarmos com facilidade a Hans, Paulette e Baltasar, não podemos dizer realmente quem são os “maus” nessa história. Se é que pecam em alguma coisa, não é no maniqueísmo.

Luis Astorga é homem do mar, e Fran Zabaleta é historiador e geógrafo, e juntos, após 5 anos e mais de 1600 páginas no manuscrito original (magicamente resumidas para 616), nos levam aos recônditos mais escuros da história da religião, seus miasmas e pústulas, e do absurdo de certas reações humanas aos mais diferentes ideários. Um belo relato do supra-sumo da ignorância religiosa.


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Uma menina com histórias pra contar...
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2 respostas para A Cruz de Cinza (Fran Zabaleta e Luis Astorga)

  1. Anica disse:

    ótimo artigo, kika! fiquei bem curiosa sobre o livro =]

  2. Pingback: Meia Palavra » Blog Archive » 10 Perguntas e meia para Fran Zabaleta

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