Saint-Germain: O homem que não queria morrer (Gerald Messadié)

Saint Germain 1“Au diable l’identité!” – Ao diabo com a identidade!

Esta parece ser a divisa do Conde de Saint-Germain (1707(?) – 1784), cuja história parece ter sido retirada diretamente de um livro de fantasia. Em vida, possuiu pelo menos dezenove nomes, nenhum deles comprovadamente seu. Sua origem é obscura.

Sabe-se que era extremamente culto, falava fluentemente francês, inglês, alemão, grego, latim e russo, e arranhava o árabe. Possuía conhecimentos de filosofia, história, física, alquimia, tinturaria, medicina e culinária, pintava consideravelmente bem e era um músico talentoso.

Numa época de padrões de higiene no mínimo suspeitos, era conhecido por ter todos os dentes – e incrivelmente brancos – estar sempre em forma e não envelhecer. Diziam também que ele possuía mais de 2.000 anos e era imortal.

Vestia-se sobriamente, mas com classe. Sua riqueza – vasta e de origem desconhecida – despertava respeito e inveja sobre sua pessoa, e durante sua vida teve a oportunidade de conhecer figuras como Voltaire, Mesmer, Casanova, Cagliostro, reis, rainhas, príncipes, eleitores e czarinas. Fundou a Societé des Amis, era grão mestre da Franco-Maçonaria e da Rosa-Cruz. Escreveu um tratado de alquimia intitulado La Très Sainte Trinosophie.

Participou ativamente da política de seu tempo, tornando-se peça no tabuleiro do “Grande Jogo de Xadrez” entre as potências européias do século XVIII.

Gerald Messadié ((Gerald Messadié (1931-) é historiador, biógrafo, romancista, jornalista científico e ensaísta francês, conhecido no Brasil por sua obra O Enigma Maria Madalena)) descreve com primazia a vida desse homem/personagem em seu livro Saint-Germain: l’homme qui ne voulait pas mourir ((MESSADIÉ, Gerald. Saint-Germain – L’homme qui ne voulait pas mourir: Le masque venu de nulle part. Archipoche – Paris, 2005 [598 p.] e MESSADIÉ, Gerald. Saint-Germain- L’homme qui ne voulait pas mourir: Les puissances de l’invisible, Archipoche – Paris, 2005 [562 p.])), que descreve como uma “biografia romanceada”, uma vez que poucos fatos da vida extraordinária que esse homem levou NÃO estão envoltos em mistério. A obra é dividida em dois volumes e seis partes, cada uma representando dois signos astrológicos, que representam a evolução do caráter deste “conde de fadas” – como Voltaire o chamava.

Esaa divisão do ciclo da vida em signos é bem conhecida de astrólogos e alquimistas, e se encaixa perfeitamente ao personagem/homem em questão. Nele, Áries representa a descoberta do EU, Touro representa o despertar dos sentidos, Gêmeos traz a consciência do OUTRO, a comunicação, Câncer cria o vínculo afetivo. Leão incute a noção do EU perante os OUTROS, a potencialização da criatividade, Virgem representa a necessidade de se sentir útil, Libra o sentido de compartilhar, Escorpião o aprendizado da Transformação. Sagitário é a busca de um propósito, uma ideologia, Capricórnio o aprendizado da autocrítica, Aquário traz o distanciamento intelectual, a libertação das normas mundanas e Peixes a transcendência.

Todas essas facetas são encontradas em Saint-Germain, no decorrer de sua existência. O jovem marcado por uma tragédia, que busca refúgio numa nova identidade, numa riqueza obtida de maneira escusa, torna-se um homem poderoso, inteligente, fino e astuto, adquirindo um grau de nobreza de espírito dificilmente observados naqueles cuja nobreza vem de sangue.

Messadié aborda essa questão, usando as reflexões de Saint-Germain sobre a natureza da identidade. Em todo o livro, o Conde faz alusões à natureza cambiante do ser humano – que seria feito de esperanças e lembranças – e da pequenez de sua existência frente as “potências do invisível” – perto das quais nada mais seríamos que anões, numa sucessão de aforismos comparáveis a Oscar Wilde.

Em vários momentos se vê o questionamento sobre a ligação entre o nome de uma pessoa e sua identidade. Quanto a isso, Saint-Germain se pergunta: “Un homme n’existe pas par lui-même? (Um homem não existe por si mesmo?). Qual a importância de um nome? O filho deve responder pelos pecados do pai? Todas essas perguntas traduzidas para um “Eu, que não tenho nome, serei alguém?”.

Cada uma dessas reflexões, cada passo de seu espírito inominado e nômade, tão bem descritos na obra de Messadié, nos levam a crer que Saint-Germain era um homem à frente de seu tempo, mas, em suas próprias palavras “Personne de lucide n’est jamais de son temps” (“Ninguém lúcido faz parte de seu tempo”).

Em suma, Saint-Germain é escrito com a acuidade de um historiador e a sensibilidade do romancista, por um dos grandes nomes da literatura francesa atual, que traduz em pouco mais de mil páginas todas as nuances de um personagem de livros de aventura que resolveu existir na vida real.

Trois points de suspension, disais-je. Le sentiment d’une phrase inachevée, comme l’est toute vie jusqu’à son terme.”

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Sobre Clarisse

Uma menina com histórias pra contar...
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2 respostas para Saint-Germain: O homem que não queria morrer (Gerald Messadié)

  1. Rafaela disse:

    Adorei a história desse conde misterioso! Será que vai sair em português? parece bem interessante.

  2. Pingback: Traduções por vir: Literatura Francesa

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